Eleicoes

Não sei você, mas estou achando estas eleições uma verdadeira aula de propaganda. Uma das melhores campanhas eleitorais que já vivi, um espetáculo de discursos, argumentos e peças publicitárias. Louco? Vou muito bem, obrigado. Bem feita, bem executada e eficiente, as mensagens de Dilma e Aécio mereceriam dissertações de mestrado e doutorado em Marketing Político. Que me perdoem os colunistas, a mídia e os leigos de plantão, que seguem o mesmo discurso (para variar, como gado rumo ao abate), e que consideram uma das campanhas eleitorais de mais baixo nível da história e que só serve a desinformação da população. Eu acho de altíssimo nível. Tudo o que importa em comunicação está ali. Construção de marca (se ainda não sabe, mas o candidato é sim uma marca a ser construída), Marketing de Guerrilha ou Guerra, dá no mesmo, na sua versão mais aguda e pura, posicionamento, recursos inovadores de arte e design, infográficos a perder de vista, até a storytelling tem e, claro, as pesquisas dando um norte para as campanhas. Se bem que não se pode segui-las a ferro e fogo. Um pouco de intuição e sensibilidade do cenário, sempre valem mais.

Sobre a tão falada desinformação, ops, devagar. Quando o cidadão médio saberia o que significa o PRONATEC? E será que ele conheceria como se calcula o teto da inflação? Como funciona o sistema de cotas? E os direitos da mulher? Será que não são justamente as campanhas eleitorais e os debates uma oportunidade para trazer um mínimo de informação a maioria da população? Pra pensar.

Voltando ao caráter profissional desta belíssima campanha, vamos começar pelos slogans. Aliás, eles são sempre o começo, o meio e o fim de uma campanha vencedora, pois traduzem o DNA do candidato, como ele quer ser percebido pelo eleitor. Neste quesito, as duas campanhas foram perfeitas, quando trouxeram o elemento da emoção e traduziram, em uma palavra ou duas, tudo o que as candidaturas representam.

A campanha de Aécio Neves assumiu o “Bem-vindo” como verdadeiro posicionamento de sua comunicação, ou seja, celebra a chegada de um novo tempo, de uma nova orientação, um novo projeto, uma esperança. Os filmes em que diversas portas vão sendo abertas, de casas, empresas, pequenos comércios, cercas de fazendas, ilustra com perfeição este slogan. Uma joia.

Já no caso de Dilma, o que tornou-se sua marca é o “Coração Valente”, tão bem ilustrado pela música da campanha. Música, a forma mais simples e eficiente de fixar uma mensagem. Pois bem, Dilma é vista como mandona, fechada, solitária. Mas aí a campanha diz: ”ela tem coração, viu?”. Tradução: se emociona, ri, chora, é uma pessoa como outra qualquer. Mas também ela é “Valente”, lutou contra a ditadura, é a primeira mulher presidenta deste país, o que convenhamos em uma sociedade machista como a nossa, não é pouco. Bingo, que lindo!
E o humor? Que beleza, um show de criatividade, se não vejamos: “Oh Minas Gerais, oh Minas gerais, quem conhece Aécio não vota jamais”. E as frases inteligentes estão aos montes, uma aula para qualquer redator publicitário, olhe essa da campanha de Aécio: “A onda da Mudança chegou. Vamos tirar o Brasil do vermelho”. Ótimo. E por aí vai, tem que ser bom para fazer, quem não é não faz. Critica.

Dizem que nessas eleições, as agressões ultrapassaram todos os limites transformando-se em uma “carnificina verbal”. Eu diria, tire as crianças da sala. Política é para os fortes, o candidato tem que estar preparado e, mais importante, precisa querer vencer. Ainda mais em uma eleição tão acirrada. O que vocês queriam, convites para tomar o chá das 5? Para “ser” candidato é preciso preparo. E mais importante, querer ser candidato. Veja o caso de Marina, por mais guerreira, ela não era a candidata, e de repente, passou a ser. Não se preparou para a campanha e foi ao sabor do vento, ora abraçada a família “Hollister” de Eduardo Campos (quem?), ora com seu discurso choroso. Foi embora com seu coque e suas contradições.

Não, o dever de uma campanha eleitoral também é desconstruir a outra candidatura, mostrando os pontos fracos que ela possui para a população, seja um caso de corrupção, seja uma gestão mal feita, sejam suas “não” realizações, oras tudo conta. Na verdade, campanha polarizada ou não, o que se trabalha é o velho e bom maniqueísmo. Os bons contra os maus. Não tem jeito, é assim que funciona a cabeça da grande maioria das pessoas. A arte de fazer a propaganda eleitoral, o slogan, as mensagens, é justamente mostrar de que lado você esta, por meio das crenças e projetos que o candidato defende. E é dizer as mesmas coisas de um jeito diferente e melhor. Simples. Se fizer isso, de forma alegre, com emoção e beleza, mas também com força, parabéns. A propaganda “convencional” tem muito a aprender com estas eleições. Mensagens rápidas e eficazes, que trazem a essência do produto. Posicionamentos fortes e trabalhados a exaustão. Nada destas peças engraçadinhas e vazias que se espalham pela mídia. Em poucas palavras: Bem-vindo, coração valente.

Gustavo de Almeida, redator publicitário, trabalha há 15 anos com criação da comunicação de campanhas eleitorais.

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